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Um novo olhar.

Cercas e arame farpado
Cercas e arame farpado
Angola Kuduro
Angola Kuduro
Candongas
Candongas
à beira da estrada
à beira da estrada

Eu sei que demorei bastante pra escrever outro post, mas tudo isso tem uma explicação, as coisas por aqui estão bastante corridas e o tempo livre acabou sendo melhor utilizado para outras atividades como falar com a namorada, ir a praia e conhecer um pouco melhor Luanda.

Mas não posso dizer que esse atraso tenha sido ruim, muito pelo contrario, me fez já saber exatamente sobre o que escrever.

Já completei 3 meses morando e vivendo aqui em Luanda e nesse tempo pude viver um pouco do dia-a-dia dessa cidade. Quando digo viver falo na essência poética da palavra, porque muitos que vem trabalhar aqui moram em Luanda Sul, o que eh praticamente uma cidade completamente fora da realidade local. Antes que alguém pense que aqui eh uma imensa favela em guerra e Luanda sul eh uma fortaleza cercada de luxo e policiais armados na rua digo que basicamente a cidade esta crescendo de uma forma absurda e foi por la que as coisas surgiram de forma mais ordenada e mais pensadas em quem iria morar la, ou seja, estrangeiros.

Uma visão que de certa forma eh compartilhada com todos aqui da empresa eh que aqui nos temos uma visão e uma vida mais próxima do que realmente eh morar em Angola. Não estou falando de você passar por todo tipo de problema que os angolanos tenham passado ou passem, mas eh apenas de se ter uma visão da vida de dentro dela e não em uma cidade projetada para nos estrangeiros morarmos, um bairro que tem cara de primeiro mundo, com ruas largas e casarões cercados de cercas elétricas e todo o tipo de parafernália de segurança.

Um dia conversando conversando no carro no habitual transito terrível daqui indo de casa para o shopping, um ponto de vista de quem morou em um desses condomínios foi que morando mesmo cercado da total comodidade dentro da sua casa, vc vive praticamente como uma senzala branca, onde vc so sai para trabalhar e volta para dormir. Onde toda e qualquer coisa que você precise fazer fora do condomínio, seja ela a mais simples possível como ir na padaria comprar pão, você não consegue fazer sem um carro e que perca pelo menos 30 minutos da sua rotina diária.

Sabe aquela coisa simples que você você faz no Brasil como sair de casa e descer a rua para comprar pão na padaria que fica a dois ou três quarteirões da tua casa? Ou você sair de casa apenas para comer um sanduiche ou tomar um sorvete na sorveteria ao lado de casa? E conversar com aqueles senhores de idade que ficam jogando domino ou conversando sobre as mudanças na vida desde que saíram da adolescência?

Nada disso você poderá fazer simplesmente porque todos ficam enclausurados em suas casas vivendo numa outra realidade em um outro pais mas que so lembram que estão fora do Brasil na hora de reclamar do transito caótico ou pra reclamar que aqui ninguém trabalha. Coisa que existe da mesma forma no Brasil e muitos desses que reclamam aqui, vivem exatamente a mesma situação la.

Posso falar fácil que uma das melhores situações que me aconteceram aqui foi um dia ter saído tarde da noite pra comprar cerveja numa ruazinha aqui atrás de casa e enquanto esperávamos a senhora que nos vendeu as cervejas ia na casa dela pegar a mercadoria ficamos conversando e rindo com as piadas e as brincadeiras que três senhoras que também trabalham no mesmo local.

Tem coisa mais legal que você parar pra conversar com um senhor de idade que esta la sentado trabalhando e praticamente esperando você perguntar algo pra ele começar a falar emocionado sobre como a vida dele eh digna e cheia de historias? Foi assim que aconteceu uma vez que eu cansado de ficar em casa, sai pra dar uma volta e olhar as pessoas na rua. Fui pedir uma informação pra um senhor e ele reconheceu o sotaque de brasileiro e começou a falar sobre a vida dele e como gostava dos brasileiros por ajudarem a construir essa nova Angola que ele esta vivendo. Bom, esse senhor nunca conheceu o Brasil, mas trabalhou em uma empresa que tinha brasileiros trabalhando junto com ele e mostrou-se bastante orgulhoso de mostrar essa satisfação e ao contrario do que muitos brasileiros que chegam e acham que o pais eh nosso, esse senhor assim como outros angolanos que conheci e conversei fizeram questão de falar que a gente eh bem-vindo aqui. Nas entrelinhas o que ele quis dizer eh que o pais eh nosso não se esqueça disso.